Um adeus... e Residuos


Sempre que alguém querido se vai lembro-me desse poema, o que aconteceu hoje com a morte do Michel Jackson

Resíduo - Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo.
Do teu asco.
Dos gritos gagos.
Da rosa ficou um pouco
Ficou um pouco de luz captada no chapéu.
Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco(muito pouco) .
Pouco ficou deste póde que teu branco sapatose cobriu.
Ficaram poucas roupas,
poucos véus rotos pouco,
pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço- vazio - de cigarros,
ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixono
queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou,
um pouco nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudono pires de porcelana,
dragão partido,
flor branca,
ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria um pouco de mim?
no tremque leva ao norte,
no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante? no poço?
Um pouco fica oscilandona embocadura dos rios e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto,
gemido de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsulade revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes
e sob os túneis
e sob as labaredas
e sob o sarcasmo
e sob a gosma
e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos
e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo
e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão.
Às vezes um rato.

1 comentarios:

Wanessa Lins disse...

Eu gosto de Drummond... esse dai não conhecia!
;)

;**
Beijos



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