O DIZIMO


Por: Jorge André Irion Jobim

Outro dia fizeram-me a pergunta sobre o que eu pensava sobre o dízimo, justamente aquele montante de dez por cento dos salários e das rendas dos fiéis que são entregues sistematicamente às igrejas.
Na verdade, eu nunca havia parado para pensar em tal assunto, até porque tenho amigos que pagam religiosamente o dízimo e saem satisfeitos com tal conduta, como se isso lhes trouxesse a paz  interior. Assim, sendo uma coisa que lhes trazia uma sensação boa, não havia reparos a fazer.
Acontece que, diante de algumas histórias que me foram narradas, resolvi aprofundar um pouco mais sobre o assunto. Para exemplificar, um amigo que atua esporadicamente como voluntário em alguns abrigos de menores, contou-me que certa vez levou uma criança órfã para passar o Natal com sua família. Ao entabular conversa com ela, percebeu que a criança estava doutrinada a acreditar que a sua fé em Deus era medida pelo maior ou menor valor do dízimo que ela tivesse condições de dar à sua igreja. Ela acreditava piamente que quanto maior o valor ofertado, maior era a sua fé. Ridículo, já que a religião Cristã, até onde eu saiba e eu não sei muito, deveria ser dos pobres e desamparados.
Bem. Em qualquer pesquisa que eu vá fazer, gosto de iniciar pela etimologia da palavra. Assim sendo, descobri que o termo dízimo, vem do latim decìmus/decùmus,a,um 'décimo, décima parte', significando um tributo que os fiéis pagavam à Igreja como obrigação religiosa.
Na Bíblia, existem várias passagens a respeito do dízimo. Em Deuterenômio 14:22-23, ela diz:
“certamente darás os dízimos de todo o produto da tua semente que cada ano se recolher do campo. E, perante o Senhor teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus por todos os dias. Também diz em Mateus 23:23 “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas.”
O interessante é que o dízimo, em todas as passagens bíblicas, sempre está relacionado  com alimentos, comida, produção agropecuária eis que ele era oferecido somente em forma de grãos, ovelhas, gado. Embora o dinheiro já existisse desde os tempos de Abraão, eis que à época já existia o salário, o comércio, os negócios e a variadas profissões e ocupações,  ele não foi estabelecido sob a forma de dinheiro.
Segundo alguns estudiosos, pelo motivo acima, o dízimo como fomos doutrinados a conhecer como tal, não é dízimo biblicamente falando. O dinheiro entregue nos envelopes não é dízimo à luz da Bíblia. Veja-se a citação abaixo que confirma tal tese:
“Todos os dízimos do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor, são santos ao Senhor. No tocante a todos os dízimos de vacas e ovelhas, de tudo que passar por debaixo da vara do pastor, o dízimo (a décima parte) será santo ao Senhor. Não esquadrinhará entre o bom e o ruim, nem o substituirá. Se de algum modo o substituir, ambos serão santos, e não podem ser resgatados”. Lv 27:30-32.
É de se atentar para o fato de que o dizimista não tinha que separar o primeiro para Deus, mas o décimo, o último. Os animais iam passando por debaixo da vara do pastor. O dízimo ou o décimo era separado e entregue ao Senhor. Assim sendo quem tivesse nove ovelhas estava automaticamente isento do dízimo. Debaixo de sua vara só passaram nove animais e, conseqüentemente, não havia décimo.
Na verdade, se fizermos uma pesquisa mais aprofundada, veremos que existem vários religiosos que contestam o dízimo, afirmando que nenhum texto do Novo Testamento contém algum mandamento que nos ordena a pagá-lo nas igrejas e que falsas interpretações de textos são elaboradas para aqueles que têm interesse nos dízimos, justamente líderes religiosos que querem enriquecer às custas daquilo que eles chamam de falsa doutrina. Para intimidar os crentes e faze-los pagar o dízimo, tais religiosos usam o texto de Malaquias 3:8-11:
"Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Vós sois amaldiçoados com a maldição; porque a mim me roubais, sim, vós, esta nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança. Também por amor de vós reprovarei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; nem a vossa vide no campo lançará o seu fruto antes do tempo, diz o Senhor dos exércitos".
Como se vê, o texto compara os que não pagam o dízimo a ladrões, equiparando-os aos adúlteros e rebeldes, esses últimos passíveis de apedrejamento de acordo com o Velho Testamento. Ora, os contestadores do dízimo afirmam que no Novo Testamento os adúlteros e rebeldes arrependidos em lugar de serem apedrejados são perdoados e passam a viver em novidade de vida e que o devorador a que se refere o texto citado, foi vencido em nossa vida, independente de dízimos. Assim se refere o Novo Testamento:
O devorador já foi derrotado - Hebreus 2:14 - "Portanto, visto como os filhos são participantes comuns de carne e sangue, também ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte derrotasse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo".
Como vemos, segundo esta corrente religiosa, nós não precisamos mais fazer prova de Deus, pois ele já nos lançou suas bênçãos, destruiu o devorador, pagou nossa dívida, e nos libertou da opressão da Lei, deixando-nos livres para contribuir conforme a nossa prosperidade, sempre com o objetivo de ajudar aos necessitados e para ajudar aqueles que vivem ensinando a Palavra. Nunca para o luxo de alguns espertalhões.
É claro que existe ainda, a figura das ofertas, únicas que podem ser trazidas em forma de dinheiro. Acontece que, por serem ofertas, o fiel deverá fazê-las na medida de suas possibilidades, sem que se possa estabelecer uma obrigatoriedade sistemática ou se possa pretender medir a fé pelo valor das mesmas.
Querer pregar o contrário, é um demonstrativo de má-fé por parte daqueles que assim agem. Afinal, pessoas que em sua maioria recebem pouco mais do que um salário mínimo, não podem abrir mão do sustento próprio e de suas famílias simplesmente para darem demonstração de fé.
Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS


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